23 novembro, 2014

Sobre a sua boemia e a minha aparente esquizofrenia.

23 novembro, 2014


"Só quero um drinque, uma conversa atoa e alguns beijos e amassos" eu dizia na tentativa de acreditar em mim mesma. Sempre achei que essa máxima que afirma que tudo o que precisamos é de amor fosse um pouco sensacionalista, sempre pensei que afirmações sobre felicidade não fossem democráticas, mas sempre mutáveis. 
É isso, mutação me descrevia. Talvez seja porque o resto dos caras não tinham esse sorrisão que segue milimetricamente lindo ao longo dos dois cantos dos seus lábios, esses lábios tão pigmentados que atiçam alguns dos meus instintos sacanas. Talvez porque os outros caras vivem no modo automático, forçam as risadas e se matam para conquistar, enquanto você se debruça em uma mesa de bar com qualquer piada infame. Ah, os bares. Você vive por eles. Por que isso soa tão charmoso? Boemia sempre me pareceu autêntica. Porque você é aquele cara que chega às 19:00 horas, de terno na mão direita, gravata frouxa e camisa classicamente amarrotada, e só sai quando der vontade. E foi numa dessas saídas no meio da madrugada que eu lhe acompanhei até o seu apartamento naquele edifício de classe média perto da praia. Aqueles metros quadrados tinham sua cara: um móvel rústico aqui, outro moderno de última geração ali. Uma cama amarrotada e um guarda-roupas ajeitadinho. Você se escora no meu ombro enquanto tenta se lembrar de como é que se move as pernas para andar, eu te arrasto. Te jogo na cama, assim mesmo sem dó nem piedade. Não porque minha sacanagem subiu junto com a bebida, é só que você tem o dobro do meu peso, principalmente bêbado. Tiro seus sapatos e você vira para o outro lado, eu me aconchego do outro. Você acorda quando a luz do sol raiando atravessa a fresta da janela e marca o seu rosto, rosto que agora tem cara de cachorro que caiu do caminhão da mudança, cara de que não faz ideia de onde está e nem quem é, muito menos quem sou. Talvez acordar com uma mulher do seu lado não seja uma surpresa, não na sua vida. Você fixa os olhos em mim e não diz nada, encaro os lençóis e consigo coragem para te olhar de volta. Logo me ocorre que você não foi só uma noitada no pub da 5ª Avenida, mas também não foi a noite quente de mais uma sexta-feira. Acontece que eu queria que você fosse o resto do sábado e mais 24 horas do domingo. Você consegue acreditar nisso que estou lhe dizendo? Eu queria que você continuasse ali, sendo que eu nunca quero que ninguém continue. Porque eu queria ouvir um pouco mais sobre como você conseguiu esse trabalho dos sonhos e como suas ex namoradas foram insuficientes, queria ouvir mais algumas vezes essa sua risada que mais parece a melodia daquela minha música favorita, queria saber como é que ficaria se você desenhasse essas suas mãos lisinhas e imponentes em cada linha do meu eu. Porque eu não queria planejar sobre a nossa lua de mel na terra da rainha, muito menos se o nome do nosso primeiro filho seria Dylan ou Nicolas, Marie ou Julia. Porque eu só queria saber como é que é essa coisa de ser sua.

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