24 agosto, 2014

Menina Lisbela.

24 agosto, 2014
Tinha seus olhos negros e grandes afundados em melancolia, seus ressecados lábios vermelhos e sua pele descorada externavam a frieza de seu corpo, tal corpo que tinha aparência leve como de uma borboleta que vaga pelo ar. Lisbela era o nome dela, sua aparência ofuscava qualquer opinião sobre ela, de onde vinha, o que fazia, o que gostava e principalmente, qual dor sofria? Tais perguntas estavam escondidas por dentro daquele corpo-cadáver. Quem conhecera Lisbela ao menos um pouco sabia que a mesma era o tipo menina-moça, vivia sozinha em seu apartamento no 8º andar, ouvia Leoni e vivia em pleno romance com seus amantes compostos por páginas, letras e histórias: seus tão adorados livros. O que ninguém além de si mesma sabia era que dentro de si batera um coração, agora machucado, talvez quase parando. Lisbela havia sido vítima daquele mal que vem matando mais que qualquer epidemia por aí, o amor. Sabe-se lá qual o motivo da separação de seu amado, talvez tenham se perdido um do outro numa dessas voltas que o mundo nos dá de vez em quando ou até por erro dele, de forma alguma por erro dela, que fora sempre tão cuidadosa com esse romance, que sempre tratara com zelo essa história que agora tornara-se apenas lembranças, tais lembranças que tornavam-se enredo das páginas de seu diário que se tivesse um título seria o nome do amado de Lisbela. Todas as noites ela escrevia capítulos e mais capítulos em seu diário, contando como havia sido seu dia, escrevia na esperança de que algum dia por descuido da vida o tal moço lê-se algumas daquelas páginas. Teus escritos eram coisas como “O dia (como sempre) fora um caos, vesti um sorriso que não me pertencia, joguei palavras alegres pelos quatro cantos da cidade e realmente fiz parecer que tua ausência não me mata um pouco todos os dias…”. Então quando terminava punha teu diário no criado mudo que se encontrava ao lado de sua cama, fechava os olhos e mergulhava num sono profundo onde se deliciava com seus doces sonhos, tais sonhos onde acontecia tudo aquilo que ela esperava. Na manhã seguinte Lisbela acordava, ligava o chuveiro e ao mesmo tempo que a água escorria por teu corpo sentia o choque que fazia-a sair dos sonhos e voltar para a cruel realidade, logo depois entrava dentro da primeira troca de roupa que encontrava, retocava o rosto com maquiagem e então saia para sobreviver lá fora. E assim foram se passando seus dias, meses e anos, sabe-se lá como terminara a história da doce-amarga moça que parecia mais morta do que viva.

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